Imigração quebra paradigmas e revela sua faceta mais hostil

Salut mes amis.

Fiquei um tempinho sem vir aqui. Estou exausta, mentalmente exausta. Estudar em outro idioma consome muito. Minhas energias estão sugadas e ainda estamos na metade do semestre. É por isso que deixo o bloguinho de lado. No entanto, é bom lembrar que adoro passar aqui para me expressar, desabafar. Sinto muita falta de escrever sem doer. Como assim doer?

Olha… Se eu contar que sinto dores quando escrevo em francês, vocês vão acreditar? Travo os meus dentes, minha cabeça dói, meu corpo reclama e minha mente míngua. Eu me sinto completamente limitada. Logo eu, a rainha da adjetivação exuberante, a princesa das metáforas exóticas, a deusa da subjetividade exacerbada. Eu não relaxo e tô aprisionada nesta limitação, na falta de vocabulário. Fico louca para escrever um texto em francês me sentido à vontade, sabendo construir as frases e adjetivando impecavelmente. Não sou capaz… Poxa! Isso dói, dói muito. E não sou a única. Fabricio também sente dores na arcada dentária, fora a dorzinha moral, quando precisa mandar um e-mail para alguém do trabalho.

Sei não… Às vezes eu acho que isso é reflexo de uma cobrança cruel que passei a vida inteira. Eu tinha que escrever bem, sem erros gramaticais. Era algo primordial. E na fala, então? Precisava provar que sabia Português para ser alguém na vida. Era um diferencial, diria até um status. E agora, numa versão afrancesada, estou sentindo na pele o meu próprio preconceito.

Assumo de coração escancarado que sempre olhava atravessado o fulano ou a ciclana, colegas de faculdade, que falavam ou escreviam um “pra mim fazer” ou “o professor deveria dar menas matéria”. Eu me perguntava como eles tinham chegado até a universidade. Preconceito linguístico, né? Mas o mundo dá voltas. Quando peguei a correção da minha última análise literária, capotei com a quantidade de erros grosseiros de francês. E estou também numa faculdade (não sei explicar direito, mas considero o Cégep uma faculdade técnica).

Enfim, lá vem a imigração quebrando paradigmas e revelando a sua faceta mais hostil. A lição: carregamos muitos prejulgamentos conosco sim e sair da bolha faz um bem danado. É uma verdadeira libertação, mesmo sentindo minhas dores latentes de francês.

Deixando um pouco essas frustrações francófonas de lado, com a volta às aulas, retomei o voluntariado na biblioteca da escola uma vez por semana e me apaixono cada vez por esse trabalho. Sem dores.

Bom, por hoje é só. Sabe Deus quando voltarei por aqui, mas deixo algumas fotinhas de outono. Ah… o outono…

Gros bisous!

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O outono perfeito é aqui – parte 1!

O outono perfeito é aqui - parte 2!

O outono perfeito é aqui – parte 2!

O outono é perfeito aqui - parte 3!

O outono perfeito é aqui – parte 3!

O outono perfeito é aqui - parte 4!

O outono perfeito é aqui – parte 4!

O outono perfeito é aqui - parte 5!

O outono perfeito é aqui – parte 5!

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Sobre Les Brazucois

:: Fabricio & Nilian . Aventuras e desventuras desses dois imigrantes em Québec, Canadá ::
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2 respostas para Imigração quebra paradigmas e revela sua faceta mais hostil

  1. Alli disse:

    Poxa, Nilian, parece até que fui eu quem escreveu seu texto. 🙂 Obviamente preciso excluir todas as referências pessoais, mas o meu português sempre foi o meu maior orgulho… De gabaritar prova no vestibular, de escrever cartas e textos impecáveis. E aí, quando estava na faculdade de Letras (fiz Português-Francês), levava três, quatro, cinco horas pra conceber um texto tosco, cheio de erros e muitas vezes ininteligível. Se eu não conseguia fazer a minha professora brasileira entender o que eu queria dizer, imagine um francófono. Preencher lacunas, responder exercícios automáticos, esse tipo de coisa nunca foi um problema, mas na hora de transformar as regras gramaticais em texto não apenas coerente mas BELO (porque a graça de escrever está justamente em brincar com um universo de palavras), a frustração me invade por completo. Ainda aqui do Brasil tenho dedicado um tempo a isso, entretanto, uma simples verificação ortográfica on-line me revela que eu estou absurdamente longe de dominar todos os acentos do francês.

  2. Romulo Leitao disse:

    Eu imagino como deve ser difícil e doloroso ter limitação na comunicação, as vezes só nos resta se conformar e relaxar um pouco, continuar estudando e saber que o tempo vai moldar o que tiver que melhorar no idioma. Todos temos nossas limitações e uns aprendem mais rápido mesmo, mas outros nem tanto.
    Estamos esperando o visto pra estarmos aí ano que vem e, desde 2013, continuo escutando, lendo, treinando francês e sempre falta alguma palavra, alguma pronúncia, entender aquela pessoa no rádio, etc. Isso, às vezes, dá uma angústia, um medo.
    De fato, todo esse processo nos desconstrói e, muitas vezes, passamos a olhar muitas coisas de uma maneira diferente.
    Um abraço! Não deixa de escrever. =]

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