Ainda na vibe do primeiro ano

Salut mes amis!

Fabricio e eu ainda estamos meio abobados com o tempo. Afinal já se passaram 12 meses. Um ano de mudança, a experiência mais enriquecedora de nossas vidas.

A palavra que define bem: gratidão.

Somos imensamente gratos por tudo o que vivemos até agora. Apesar de algumas dificuldades pelo caminho, necessárias para nossa evolução, o saldo é positivo.

Desde que começamos com a ideia de mudar radicalmente de vida, eu pesquisei bastante sobre a Província de Québec. Li e reli artigos e depoimentos de outros brasileiros sobre mercado de trabalho, cultura, saúde, lazer. Enfim, garimpei ao máximo tudo o que poderia nos ajudar a formular um projetinho de imigração. Mas, como tudo na vida, nada saiu 100%.

Nossa maior dificuldade foi (e ainda é) o idioma. Eu na minha ingenuidade pensava que tiraríamos de letra. Alguns de vocês devem estar se perguntando: “Mas já faz um ano! Vocês ainda não sabem o francês não?” Nossa humilde resposta é: “Não! Ainda não sabemos a língua de Victor Hugo”. É claro que, comparando nosso nível de quando chegamos, hoje estamos mais soltos e entendemos melhor. Mas a rotina nos mostra que ainda temos um belo caminho a percorrer. O francês que aprendemos na cadeira da universidade daqui não é o mesmo do dia-a-dia, da rua, do ônibus, do trabalho. Por mais que nossos professores quebecas nos ensinem as expressões, os palavrões, o humor, só metendo as caras é que vamos descobrir. Mas, Fabricio e eu somos persistentes e já enfiamos o pé na francofonia.

Lusófonos que querem se tornar francófonos num país de maioria anglófona. Éééééé… Estamos mais ou menos lascados!

Não faz nem um mês que Fabricio começou a trabalhar em uma indústria farmacêutica e eu num supermercado de produtos orgânicos. Putz… Pra quem sempre trabalhou na vida, desde os 16 anos, ficar “desempregada” pouco mais de um ano foi enlouquecedor. Agora, estamos mais tranquilos e nos integrando bem. Mas, pretendemos ir além.

Eu voltarei a estudar em setembro  e tentarei conciliar os dois, trabalho e estudo, como sempre fiz na vida. Baita desafio, pois tudo isso em outro idioma! Há quem diga que eu não vou aguentar. No entanto, quero pelo menos tentar. Já Fabricio pretende encarar um curso de computação gráfica logo depois que seu contrato acabar, pois o trabalho é temporário e vai até agosto. Darei detalhes sobre este assunto num próximo post.

Nós nos apaixonamos pela Província de Québec a cada dia e a cada descoberta. São as pequenas coisas (ou grandiosas) que nos faz refletir e agradecer de poder ver e viver tudo isso. Diferente do Brasil, qualquer profissão aqui é valorizada. Ninguém, absolutamente ninguém, trata com desdém um auxiliar, um faxineiro, um motorista. Todo mundo é igual. O dono do lugar onde trabalho põe a mão na massa como qualquer outro funcionário. Vira e mexe, eu o vejo dobrando caixas de papelão para a reciclagem. Na hora do almoço, ele pega a sua marmita, esquenta no microondas e senta na mesma mesa com todo mundo. E no dia que presenciei isso, imaginei o deus de uma rede de supermercados de Juiz de Fora fazendo a mesma coisa. Não! Ele não faz! No Brasil, acho que ainda existe uma enoooooorme distância entre chefe e empregado. E aí eu me dei conta que todos os apertos que passamos para chegar até aqui valeram muito!

Tem gente com cabelo roxo, tem gente com cabelo azul de um lado e amarelo do outro, tem gente tatuada, tem gente com um milhão de piercings, tem gente que anda de pijama na rua, tem gente que prefere calçar uma meia diferente da outra. Ninguém condena. Ninguém recrimina. E ninguém fica chocado quando duas senhoras lésbicas lascam um beijo na boca no horário nobre porque aqui isso é comum na vida real. Grande parte das pessoas respeita os heteros, os trans, os bis, os homossexuais e os assexuados. É outra mentalidade, praticamente liberta de dogmas e todo lixo mental proveniente da religião.

A filosofia de vida é reta: Trabalhe! Consuma! Divirta-se! Desfrute dos serviços! Pague seus impostos!

E pagamos felizes, pois desfrutamos de segurança, dos melhores parques, das melhores estradas, de uma educação de qualidade, de uma saúde de ponta (ainda que tenha alguns problemas). Angélica e Luciano Huck entrariam na mesma fila de emergência que as babás-sem-nome. Até o primeiro-ministro pega fila e provavelmente esquenta a sua marmita no microondas também. Podem acreditar!

Começou um pequeno rebuliço social aqui, pois este mesmo primeiro-ministro convidou o Papa Francisco para participar, em 2017, das comemorações dos 375 anos de Montreal. Muitos já bateram o pé e provam, sem verborragia de facebook, que essa viagem sairá do bolso de quem paga impostos e que estas visitinhas oficiais de Papa, de Rainha ou qualquer outra entidade custam caro.

E assim vamos recomeçando nossa vida em solo canadense, com humildade necessária para receber sem amarras uma nova maneira de ver a vida.

É bom lembrar também que passamos nossos bocados e, mesmo assim, prefirimos pastar e quebrar a cara aqui. Não sentimos a menor falta do Brasil e nem queremos voltar!

O único preço que pagamos é a saudade dos amigos e entes queridos. Como podem ver, nem tudo é perfeito.

E vida que segue…

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Sobre Les Brazucois

:: Fabricio & Nilian . Aventuras e desventuras desses dois imigrantes em Québec, Canadá ::
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4 respostas para Ainda na vibe do primeiro ano

  1. Ana disse:

    Os primeiros anos sao dificeis, mas ainda sim compensa. So de imaginar aquele Malafaia e seus seguidores fazendo boicote contra os produtos que defendem a diversidade sexual, de imaginar o machismo, aqueles homens mexendo com mulheres na rua, todo aquele pensamento retrogrado brasileiro, prefiro mil vezes estar aqui.

  2. E “Vida Que Segue – Canadá”! Saibam que nós admiramos muito a coragem de vocês, enfrentando essa província “esquisita e meio maluca” que para nós representa literalmente “o outro lado do rio”… e temos certeza de que vocês, aí falando nesse dialeto de francês que não conseguimos entender… “pá pié pu”… serão muito felizes e vencerão! Parabéns pra vocês dois!!!

  3. Alessandra disse:

    Please! Não pare de escrever! Hoje estava em busca de novos blogs sobre o Canadá e me deparei com o blog de vocês. Essa busca de informação já faz parte da minha rotina, estamos nos preparando para mudar em janeiro de 2016 Winnipeg MB Canadá. Apesar de vocês estarem em lugares diferente eu me diverti muito com as informações e experiências de vocês. TOP TOP TOP demais, adorei ler. Me desculpa mas eu chorei de tanto rir sobre as dificuldades da língua no trabalho, você narrou a situação muito bem, consegui visualizar a cena. Tenho dificuldades com a língua e me vi na sua situação, estamos aprendendo Inglês, pois a província que vamos prevalece o inglês. Obrigado por compartilhar suas dificuldades, através dela vejo que não é somente eu que tenho dificuldades existe outras pessoas que estão na mesma batalha. 🙂 Boa Sorte!

    • les Brazucois disse:

      Ei, Alessandra! Que bom que eu arranquei algumas gargalhadas de você. Mesmo com todos os perrengues e dificuldades, procuro o lado cômico de tudo. A vida é alegria, não é mesmo?!
      Boa sorte na sua empreitada! Se precisar de algo, conte conosco! Beijos, Nilian.

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