A minha ignorância

Salut mes amis!

Em 1990, durante a Copa do Mundo sediada na Itália, eu assistia aos jogos ao lado do meu saudoso Pai e me lembro, como se fosse hoje, o quanto fiquei chocada com um comentário dele. Explico.

Naquela Copa, a seleção de Camarões se destacou demais. Era a sua estreia no Mundial e chamou muita atenção a velocidade e a presteza dos jogadores. Foi bom vê-los ganhar da Argentina…rs! Avançaram até as Quartas de Final. E exatamente por isso Camarões caiu na boca da mídia e virou uma celebridade da Copa.

Papo vai, papo vem sobre a seleção Camaronesa, o meu Pai soltou o seguinte comentário “Estes jogadores são velozes assim porque lá no país deles precisam correr dos leões para não serem comidos”. Achei que meu Pai estava brincando, mas não. Ele jurava que era assim e ponto final. Na cabeça dele o continente africano era totalmente selvagem. Não discuti, a Alemanha venceu a Copa e a vida seguiu…

Cheguei no Canadá. Escolhi Ville de Québec como cidade. E exatamente aqui tive um pensamento similar ao do meu Pai. Que vergonha! Julguei no passado e cometi o mesmo delito ignorante agora!

Mas acho fundamental dividir este meu pré-conceito com vocês (não confundam com preconceito, s.v.p). Ainda que me julguem e me condenem, é bom dividir também que eu tenho plena consciência de que agi e pensei como uma ignorante e desinformada.

Vamos ao fato!

O governo canadense oferece várias oficinas para os imigrantes. Conosco não foi diferente e fizemos uma jornada de integração durante uma semana com foco no trabalho québecois. Assistimos palestras sobre a história, a cultura e os valores da sociedade quebequense, como funciona o mercado de trabalho aqui, como elaborar um currículo, como se portar numa entrevista e outras dicas.

Nossa turma era composta por cerca de 30 pessoas de várias nacionalidades. E logo no primeiro dia cada um se apresentou dizendo país de origem, profissão e desde quando chegara aqui.

E eu me surpreendi com minha visão torpe sobre alguns colegas imigrantes.

Como cheguei uns dez minutos antes de iniciar a palestra, observei a galera que já estava lá e vi alguns homens e mulheres com aquelas espécies de túnicas muito coloridas, penteados elaboradíssimos com tranças milimetricamente formadas ou lenços estampados na cabeça como um turbante exótico. Imaginei no ato: “Devem ser refugiados!”

Para minha surpresa (e tapa na cara) estas pessoas são Residentes Permanentes como eu. Alguns com Doutorado em Economia, outros com larga experiência na área de Tecnologia da Informação. Profissionais da República do Congo, da Nigéria, da Costa do Marfim, de Camarões. Profissionais do Brasil, da Colômbia, do Uruguai, da Argentina. Profissionais do Líbano, do Marrocos.

Profissionais selecionados por um Processo de Imigração. Trabalhadores qualificados! Profissionais!

Eu tenho muito o que evoluir ainda. Ou melhor, eu tenho muito que pesquisar e aprender. Adquirir mais conhecimento a fim de cegar minha ignorância. Assim como meu Pai, na minha cabeça estas pessoas não tinham formação profissional. Na minha ignorância estas pessoas, principalmente do continente africano, não tiveram a oportunidade de estudar.

Na minha ignorância…

Confessei esse meu pensamento toscamente distorcido para o Fabricio e ele afirmou algo interessante.

“Você não acha que na cabeça de vááááárias pessoas o Brasil não passa de uma bunda, passeando pela favela do Rio com um copo de caipirinha em direção ao Carnaval na Amazônia?!”

Concordo plenamente, mas sinto-me na obrigação de quebrar os meus pré-conceitos, abrir mais a minha mente, ser capaz de conhecer uma pessoa sem imaginar como foi a vida dela.

E sou grata por estar num lugar que me proporciona isso o tempo todo. Obrigada, Canadá!

Vida que segue…

Bises

Até tu, Adidas?!

Até tu, Adidas?!

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Sobre Les Brazucois

:: Fabricio & Nilian . Aventuras e desventuras desses dois imigrantes em Québec, Canadá ::
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7 respostas para A minha ignorância

  1. Diogo disse:

    Muito bacana seu relato

  2. Às vezes o pré-conceito está na nossa cabeça…. E eu ri demais com a frase: “Você não acha que na cabeça de vááááárias pessoas o Brasil não passa de uma bunda, passeando pela favela do Rio com um copo de caipirinha em direção ao Carnaval na Amazônia?!”

    Pior que vocês ainda terão que explicar várias vezes que não! Não é!

  3. Anderson disse:

    Muito bom acho que é bem isso, e no exterior descobrimos que as pessoas são mais iguais que diferentes independentemente de onde vem…Nessas horas gosto muito de um vídeo que revejo de tempos em tempos da Chiamamanda Adichie: O perigo da história única. É longo, mas vale a pena…. http://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt-br

    Abs
    Anderson

  4. gabi disse:

    eu trabalhei em Parc-Extension, que é um bairro com historia de imigraçao grega, depois re-colonizado pelos sul-asiaticos. ha muitos muçulmanos e até mulheres que vestem burcas. Muitos hindus e mulheres que passeiam na rua com sari e casacao de inverno. Eu também tive que me despir de varios pré-conceitos.
    o Brasil é multicultural, mas acho que la na terrinha todo mundo se *incorporou*, aqui ainda ha muita preservaçao da identidade cultural. Minha sogra mora no meiao de Outremont, entre 2 sinagogas hassidiques e eu nunca tinha visto, mesmo tendo trabalhado por 8 anos num hospital judeu, em Sao Paulo nunca cruzei com hassidiques (nem sei se ha pelas bandas tropicais!)

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