Do céu ao fel ):

Salut, mes amis!

O post de hoje é muito chato.

Sou nascida e criada em Juiz de Fora, uma ex-pacata cidade do interior de Minas Gerais.

Sou do tempo em que brincar na rua era algo divertido, saudável. Juntava a turminha do bairro para andar de bicicleta, jogar queimada, pique-bandeira, polícia-ladrão, bolinha de gude e amarelinha. Nada de assalto, nada de loucos ao volante usando a rua da minha casa como pista de corrida. Nada de crack!

Em tempo de Copa do Mundo era uma festa só. Fechávamos a rua para pintá-la e cobri-la de bandeirinhas no maior senso patriótico, ou seja, verde-amarelo. Era outro astral!

Na adolescência, íamos para as festinhas (famoso Hi-Fi e viva Anos 80!)  a pé,  andávamos à noite na rua sem medo, levando nossos vinis para tocar os famosos hits (♫♪ Um abajur cor de carne Um lençol azul Cortinas de seda ♪♫)! Tinha hora pra chegar e obediência era coisa séria!

Mas, contudo, porém, todavia… a história agora é outra! ):

Juiz de Fora cresceu desordenadamente, desembocando na dura diferença social, surgimento de favelas, mendigos e pedintes nos sinais de trânsito. Além, é claro, do grande vilão atual: o tráfico.

O bairro da infância virou uma perigosa periferia. Papai e Mamãe nunca quiseram sair de lá, pois construíram com muito esmero aquela casa, o lugarzinho deles. Papai perdeu a luta para o câncer e se foi. Resolvemos tirar a Mamãe de lá. Ela se recusou! É o seu canto, a sua vida. Respeitamos a sua vontade, mas reforçamos a segurança e agora um muro imenso tenta proteger a casa da rua, que um dia foi recanto de diversão.

Os colegas da turminha do bairro tomaram seu rumo. Alguns se deram bem, outros nem tanto e poucos já partiram deste plano espiritual, devido à violência, ao tráfico.

Dura realidade e que inflama cada vez mais!

Moro numa Pracinha deliciosa, arborizada. Grande parte dos meus vizinhos são idosos, gentis e com histórias de vidas fascinantes.

De uns meses pra cá, a Pracinha se tornou reduto de traficantes, mendigos, viciados e menores infratores. Sem explicação, pois temos um Posto Policial a alguns metros dali que não faz absolutamente nada para resolver o problema. A Pracinha perdeu a vitalidade. Agora está feia, escura e suja. E nós moradores vivemos com medo!

Eu não vejo solução pro Brasil.
Entendem agora porque aposto tanto no Canadá?! Eu só quero viver sem medo…

Compatilho também da desilusão dos colegas Au revoir Brésil e Les Poussin. #fato

Do céu…
(Google Imagens)

…ao fel
(Google Imagens)

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Sobre Les Brazucois

:: Fabricio & Nilian . Aventuras e desventuras desses dois imigrantes em Québec, Canadá ::
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17 respostas para Do céu ao fel ):

  1. Justamente. Enquanto aguardamos a chance de poder viver em uma sociedade organizada, temos que tentar sobreviver resistindo a tristeza de que um lugar que antes era tão bom, se tornou horrível. Um país de tanta beleza simplesmente estragou; passou do ponto antes de poder ser consumido.

  2. Ah, querida, Nilian… Como eu te entendo! Sei na pele o que você está sentindo, pois posso dizer as mesmas coisas de Brasília,,, 😦

    O Brasil já era um país perigoso antes, agora com o advento da ‘popularização’ do crack, a coisa degringolou de vez!

    Esses dias eu estava conversando com uma amiga canadense sobre a liberdade de caminhar a noite, sozinha, sendo mulher. Na verdade estávamos falando sobre belas noites de inverno e ela me contava sobre as vezes que saía do trabalho meia noite e ia caminhando para casa, totalmente sozinha, apreciando o frio e o silêncio. Daí eu me dei conta de que nunca vivi nada parecido, pois das poucas vezes que tive que andar tarde da noite na rua sozinha eu estava com tanto medo que só pensava em chegar em casa.

    Me pergunto se vou conseguir aproveitar isso ao chegar no Canadá. Caminhar livre, sem medo. Acho que não, esse ‘ranço’ vai ficar aqui para sempre… Só de me imaginar em uma rua, sozinha, durante a noite já me dá calafrios…

    Beijos,
    Lidia.

    • Brazucoise disse:

      Lídia, ma belle, lamento que seja assim… Rogo muito pra abstrair este trauma de ficar andando na rua olhando sempre pra trás, apreensiva.

      Mas vamos ter fé de que lá em Québec as coisas sejam beeeeem mais tranquilas e diferentes. Coragem!!!

      Bjo grande
      Nilian

      • Ah, o título do meu post de hoje é parecidíssimo com o seu, mas eu juro que já havia começado a escrever ele antes de ver o seu título… Aí fiquei com preguiça de pensar em outro! Hhahaha! Acho que o povo vai pensar que eu te copiei, mas quem liga, né?

        Bêju,
        Lidia.

      • Brazucoise disse:

        hahahahaha
        sem nóia, ma belle!

  3. Camila disse:

    Nem tem muito mais o que dizer né Nilian. Felizmente nunca sofri nenhuma violência física, mas a violência psicológica é tão nociva quanto. Vamos nos aprisionando cada vez mais e a liberdade já não existe. Mas para mim o pior são aqueles que não se incomodam se a violência está do outro lado da rua. Perguntei para muitos amigos paulistanos se eles não estavam com medo por causa dessa onda incontrolável de assassinatos em SP e eles falaram: mas isso não é aqui, é só na periferia, pode ficar tranquila!
    Fala sério: é por essas e outras que eu me sinto cada vez mais distante dos meus amigos aqui.
    Mas força que dias melhores virão!
    Bjos

  4. Dea disse:

    Ai Nilian,
    Não gosto de ficar escrevendo coisas negativas, mas acredita que passei por 2 sustos horríveis nesta semana? Um em Vinhedo, de madrugada, quando pensei que havia alguém dentro de casa e liguei pra polícia (que me tratou com o maior descaso, mas tudo bem) e outro em São Paulo, com um louco que começou a gritar de madrugada que iria matar todo mundo e não adiantava tentar fugir! Felizmente não aconteceu nada, mas estou com as costas travadas de tanta tensão, nem o rpg deu jeito! É uma violência psicológica mesmo, como disse a Camila.

    O astral anda horrível, acho que você captou essa negatividade aqui no seu post. É triste, fico desesperada pra conseguir sair daqui enquanto há tempo… mas sei que vou continuar apreensiva pelos que estão aqui.

    Desculpa o desabafo… espero que nosso visto saia logo!
    Bisous!

    • Ai, Dea, que horror! 😦 Não sei o que eu faria se acordasse de madrugada achando que tem alguém dentro da minha casa, credo!! 😦 😦

      E do jeito que as coisas são aqui em Bras-ilha, se realmente tivesse algué mdentro de casa a pessoa teria tempo para fazer o que quisesse, pois aqui, quando as pessos chamam a polícia ela nunca vem ou vem depois de muitas e muitas horas… 😦

    • Brazucoise disse:

      Dea, queria me desculpar do fundo do ♥ por este post tão chato. Eu sei que atingiu muitos de nós.

      Ontem eu estava tão revoltada com o “sistema”, que precisava externar isso e a escrita é minha válvula de escape preferida.

      Esta é, de fato, uma das piores fases de nossas vidas. Precisamos nos apegar em algo pra seguirmos confiantes até a chegada do Visto RP em nossas mãos.

      Entoces, nada de baixo astral. Bola pra frente!

      Super Ultra Abraço procê!!!
      Nilian

  5. Que triste pensar na pracinha assim…
    Uma das coisas que mais me motiva nesse sonho de imigrar é a segurança.
    A oportunidade de viver sem medo, de andar na rua a noite, de nao precisar de porta giratória nos bancos, de poder ter as coisas não tem preço.

    bisous

  6. Les Lapins disse:

    Gente, achei uma 80ies girl que fala minha língua!!! Você jogava bets (ou taco!) com latinha de óleo tb? kkkk

    Saudades daquele Brasil…as vezes eu acho que ele nunca existiu, tamanha diferença com o que se tornou. Ainda hoje me dá um nó na garganta quando ouço uma música que me remetem aquele Brasil. Obrigada por confirmar que eu nao estou louca, aquele país já existiu, ainda que esteja morto e enterrado… 😦

    Sabe, anos atrás, quando estavamos nessa condiçao de falta de identificaçao com o meio como a que vc. descreve no seu post, achávamos que o problema era Sao Paulo. Pensamos em nos mudar, cheguei a trabalhar em uma regiao do nordeste para avaliar a possibilidade de mudar de vez com toda familia…tentamos outras cidades… e com o tempo descobrimos que nao era Sao Paulo. Era o Brasil! E pior, nao viamos o menor resquício de possibilidade de melhorar. Passaram governos de direita, de esquerda, centro, militares, e nao foram capazes de impedir o Brasil de se tornar o que tornou, muito menos de consertar. Ai, num momento de desesperanza total (e olha que na época o crack era uma coisa restrita ao centro velho de Sao Paulo, heim, nem vivi essa popularizaçao dele!), o Canada surgiu na nossa vida como um passe de mágica. Mas ficaram para traz pessoas queridas que, assim como sua mae, estao ligados demais as suas origens brazucas e nao estao a fim de troca-lo pelo Canadá como eu, você e tantos outros.
    #comolidar?

    beijocas e força na peruca, quem sabe a gente organiza para pintar a ste-catherine em 2014, ok? Tem umas quadras aqui que acho até que dá para jogar queimada. Eu sempre perdia, by the way!!

    Erika

    • Brazucoise disse:

      A vida é feita de escolhas, não é mesmo?! Às vezes, são duras e penosas, mas tantas outras gratificantes…

      Agora, as lembranças boas e os melhores momentos de nossas vidas ninguém tira 😀

      Obrigada pela sua visita por aqui. Eu amo o seu astral!

      Bjo grande
      Nilian

  7. Nilian, será que te vi nas calçadas de Juiz de Fora? Olha, eu tenho uma memória do capeta. Morei lá entre 1999 e 2001 no Colégio dos Jesuitas. Aposto que você estudou nele!Já pensou?
    Sabe o que eu mais adorava naquela cidade? Uma Igrejinha Grego Melquita que parece uma nava espacial. Adorava comer frango com quiabo no Barro de Santa Terezinha e ver uma Padre chamado Botty dançado macumba na mesa do altar! Era uma maravilhas!
    Eu cuidei dessa violência em Juiz de Fora. Era muito difícil resgatar os jovens da criminalidade por conta da falta de perspectivas e da desigualdade social. Foi lá que decidi abandonar a vida de jesuíta para estudar Economia, acreditando que somente pesando uma nova economia poder-se-ia vencer a batalhas social. Ainda acredito nessa utopia!
    Mas já não tenho tanta força para cuidar dos outros. Força, no entanto, resta para cuidar dos meus! Esta força que compartilho com você!
    Forte abraço e muita coragem!
    FKF

  8. Cara, você não sabe a alegria de ouvir “menina Veneno” depois de 25 anos!
    Que saudade das minha paixões infantes! E, nas brincadeiras de “cai no poço” eu sempre queria a maçã só para arrancar um beijo dela! Ela me detestava, mas…. Vida linda aquilo! anos 80

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